América Latina no fundo do poço midiático

nodebate –  Não seria razoável que uma pessoa falasse mal dos vizinhos de seu bairro, cotidianamente, de maneira desrespeitosa, cujo objetivo, explicitamente, é lavar a todos a um consenso, como o argumento: “o que penso – seguindo debate com os meus amigos intelectuais – é melhor do que os demais entendem”. Seria, rapidamente, uma forma de avaliar o que se passa no jornalismo brasileiro sobre a América Latina.

Em razão simplesmente de muitos países da região, de não concordarem com propostas neoliberais, de grupos políticos e econômicos do Brasil, dispõem-se nas páginas dos jornais e vídeos da TV, estrangeiros em sua própria terra. “Seria um primitivismo em meio ao modernismo dos grandes centros econômicos, onde reina a paz e a fartura”, poderia defendem o autor da ideia hegemônica.

Para ficar em alguns recortes de jornal como exemplos, envolvendo Equador e Venezuela, o Jornal Folha de S. Paulo, apenas na publicado de hoje (16), seguindo o consenso do Jornalismo nacional, deixa muito explicitamente o que pensa e o que quer das nações vizinhas: agregarem-nos ao consenso da economia global.

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De fato, a generalização é desonesta e burra, ponto. Contudo, neste caso, como se pode notar, aqueles que tiveram paciência para conferir – na política brasileira, conservadora modernistas, não somente no “empossamento” legítimo de um governo, que, ainda sem votos diretos, mas também um pensamento que se busca legitimar, cujo projeto não é somente nacional, mas latino-americano ou mesmo global midiático e institucional.

Nada de novidade? Não pode ser.

Paradoxos de uma reportagem sobre a América Latina

nodebate – Perdendo tempo nesta análise, isso mesmo, dada a imposição para formação de um consenso histórico brasileiro estranho, mas vale a pena, com o intuito apenas de mostrar questões políticas contraditórias em textos jornalísticos sobre a região e econômica global. Em reportagem de SYLVIA COLOMBO, da Folha S. Paulo (envia especial à Assunção) no  Paraguai, o texto visa levar ao leitor olhar positivo da lógica econômica que está pelo mundo, e, claro, na América Latina.

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Imagem Folha de S. Paulo/ Marta Escurra/Folhapress

Neste relato, “O país cresceu entre 3% e 4% nos últimos anos, enquanto as demais economias da região ficaram na média de 2%.” Qual o segredo?

Pois, como afirma a reportagem “Eleito em 2013, Cartes é um dos principais empresários do país…. Assumiu, disse que faria uma administração empresarial. … Além de ex-funcionários de suas empresas, chamou para o governo jovens da iniciativa privada e com formação no exterior.

No governo nomes do mercado internacional, soma a esta proposta. “Para o ministro da Fazenda (foi levado como estratégia global), Santiago Peña. (Ele tem) 38, é um dos ministros mais jovens, estudou na Universidade Columbia (EUA) e passou pelo FMI.

Em função do crescimento econômico do país vizinho, Horacio Cartes (Colorado, partido conservador), quer tentar mais uma reeleição no Paraguai. Nada demais, por conta do apoio já esperado de empresários nacionais e internacionais – inclusive do Brasil –  na América Latina. Por certo não faltará recursos e propaganda.

Mas esbarra em duas coisas: a justiça, na lei eleitoral do país, e o adversário candidato Fernando Lugo, que sofreu impeachment depois de ser visto como de esquerda e agitador regional. A primeira questão parece ser fácil, mas quanto à popularidade é outra história. Como revela a jornalista da Folha, na última linha de seu texto: “Segundo pesquisas recentes, Cartes tem baixa popularidade, 23%. Já Lugo, 58%.

Onde está o Paradoxo da matéria? Crescimento econômico que é o gancho da reportagem, ou seja, o que motiva a matéria, descarta a política social, cuja abordagem sobre os interesses da sociedade paraguaia aparece no final do texto, desconstruindo toda lógica de evidenciar o boom momento paraguaio, na economia global. Evidencia, portanto, que falta nos dizer, diante destes números (econômicos e políticos), qual é a realidade social do pais, internamente, com históricos de conflitos.

Venezuela fora do Mercosul

Disputas regionais

https://i0.wp.com/mundoeducacao.bol.uol.com.br/upload/conteudo_legenda/dab830205a80fad5afe41dc0aa5e6191.jpgnodebate – A afirmação de que as instituições democráticas estão sólidas no Brasil e no mundo parece não conseguir convencer interlocutores mais críticos em uma simples conversa . Na América Latina, o Mercosul vai se tornando uma instituição dominada por grupos econômicos e não exatamente um bloco de países, que mesmo fracamente unidos visam o interesse da economia regional. As mudanças política no Brasil, com a posse de Michel Temer (PMDB), que tem na base de sua administração o projeto político liberal do PSDB, vem reduzindo drasticamente as relações políticas na América Latina.

Neste sentido, a retirada sem negociação da Venezuela do bloco econômico, em nome da democracia – que resume em determinações liberais – gera mais conflitos do que solução para as crises nacionais, com reflexos diretamente nos países da região, sobretudo, naqueles que se mostram o bastião da ordem e moral pública.

A Argentina, Brasil e Paraguai – este sofreu retaliação do bloco em tempo de golpe de Estado, perdendo o direito de veto sobre a integração da Venezuela no Bloco, aproveita do momento para reagir –  se aliaram  politicamente contra Uruguai e Venezuela. Como os venezuelanos vivem conflitos políticos internos, como ônus calculado, governos argentino e brasileiro especificam medidas que Nicolás Maduro deve adotar rapidamente na ordem do país em disputas, com a vista a determinação democrática que apregoam. Como não encontra saída, a sentença está previamente calculada, favorecendo os opositores do governo venezuelano.

Diante do quadro, com o endurecimento nas disputas, a Argentina define a postura de assumir, com apoio dos destacados amigos, a presidência do Mercosul, para o fechamento administrativo do ano de 2016, sem governança, de fato. Seria o país que legalmente assumiria já no primeiro semestre do ano de 2017, para depois ser a vez do Brasil, sob o comando do Chanceler tucano José Serra.

As relações do governo brasileiro na região está de mal a pior, sem haver conversar mesmo que de cortesia entre políticos e governos. Na realidade vive-se um clima de guerra entre os países da região, divididos politicamente, sobretudo, depois do impeachment do Dilma Rousseff (PT).

Se a proposta do novo governo é o interesse do Brasil, que depende de negócios com os vizinhos, seria o de tentativa de aproximação administrativa. Como parece não ser, o que está imperando no debate são as decisões meramente ideológicas e políticas. No final, o que sobressai é a tentativa dos brasileiros e argentinos de definirem para a região uma política regional de interesse de países de economia global. No entanto, há um fator complicador. Com a vitória de Donald Trump (Republicano) nos Estados Unidos (principal player global), o que se revela rapidamente é o fechamento internacional das fronteiras econômicas para o mundo globalizado.

O Brasil poderá não atingir o seu objetivo na dependência internacional, com algum resultado para a política brasileira, o que põe a gestão Temer em situação de risco, com baixa popularidade e sem apoio regional. Evidentemente, que quem paga primeiro a conta são os cidadãos brasileiros, que em grande número não são informados devidamente pela mídia brasileira conservadora sobre a realidade regional.

Analisando estes pontos, a negociação dentro do Mercosul torna-se ainda mais necessária e racional. No entanto, parece não ser a ideologia empregada por Michel Temer, José Serra, Mauricio Macri (Argentina) e menos pela liderança tucana no governo. Pior o PSDB, tendo como liderança forte de Fernando Henrique Cardoso, já vê possibilidade de assumir o direito de eleições indireta para o governo do país – o que resultaria em um golpe dentro do golpe.

Ortega é reeleito com vitória arrasadora em eleição da Nicarágua

Photo(Reuters) – O presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, conquistou um terceiro mandato consecutivo como presidente do país da América Central no domingo.

O ex-militante de 70 anos, que concorre com sua esposa, Rosario Murillo, como vice-presidente, teve 72,1 por cento dos votos, garantindo um terceiro mandato consecutivo até 2021, informou o conselho eleitoral.

O anúncio fez com que centenas de apoiadores da Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN) saíssem às ruas de Manágua para celebrar.

O principal oponente de Ortega, o candidato do Partido Liberal Constitucionalista, Maximino Rodríguez, ficou em segundo com 14,2 por cento, de acordo com o conselho eleitoral.

Veja reportagem na íntegra

Política como negócio

nodebate – Seria estranho de imaginar que os empresários não atuem no mundo político. Na América Latina tornou-se clássicas estas intervenções empresariais. Talvez o grande exemplo foi o do Chile na década de 70, com Salvador Allende, que se viu em disputa com o  empresariado, que boicotavam o comércio no país respondendo aos apelos e determinações dos Estados Unidos, temendo os chilenos optarem pelo socialismo, em tempo de guerra fria.

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Imagem – Christian Veron/Reuters/Folha – Manifestação na Venezuela contra o governo de Nicolás Maduro

 

Na Argentina, com a família Kirchner serve também de referência para a questão, quando empresários fizeram oposição aberta ao governo, seja interna ou externamente, embora para um a política argentina que nunca deixou de ser de prioridade monetária. Ao contrário, porém, o modo de atuação, em tempos de privatizações, foi outro com forte investimento no país durante o neoliberalismo de Carlos Menem, nos anos 2000.

Pois bem, a falta de incentivo aos venezuelanos “bolivarianos” permanece neste sentido, seguindo a lógica da subjetividade do mercado global. Simples entender que no mundo do capital, o mais importante é exatamente o dinheiro, que é regulado pelos centros de poder econômico. Desta maneira, de olho nos lucros, os empresários respondem aos anseios de nações que indicam os caminhos para a ordem econômica.

A Venezuela passa por um processo forte de desmobilização política para mudanças de governo, cujo objetivo, fundamentalmente, é o lastro financeiro e abertura de capital global.

Os agentes da oposição sabem disso e entendem que este é o melhor caminho para tais grupos, mas devem ter a clareza que a história não começa aqui. Os resultados passados, de dependência econômica, demonstram menor divisão de renda e empobrecimento de parte significativa da população.

O Brasil, com Michel Temer está contemplando o farol dos movimentos neoliberais e seguindo-os energicamente, portanto, vem desmobilizando estrategicamente o negócio empresarial com o vizinho socialista, como um ator brasileiro global.

América Latina ocupada

nodebate – As ocupações que ocorrem nas escolas brasileiras contra as medidas neoliberais do governo Michel Temer (PMDB), em resposta ao apoio e determinação de uma elite econômica brasileira, servem como sintoma da falta de representatividade do Palácio do Planalto no Brasil. No entanto, os meios de comunicação no país e de algumas nações da região, avolumam o poder da política governamental brasileira para impor modelo extrativista das riquezas regionais, não somente em território nacional.

As viagens de Temer à Argentina, Paraguai e Chile recentemente não permitem dúvidas quanto à seleção de seu grupo político latino-americano, de modo a se apresentar na defesa de um modelo que serve ao propósito, porém contrário a qualquer tentativa de uma política de independência, seja econômica ou social. O ministro da Relações Exteriores nas mãos do tucano conservador José Serra é o signo da linha de pensamento de um governo já marcado pelos contratos definidos, antes de assumir provisoriamente a governabilidade brasileira.

Deste modo, está estabelecido uma pauta de guerra na região, considerando de um lado Brasil, Argentina, Chile, Paraguai e do outro Bolívia, Equador, Venezuela, de maneira aparente – embora seja uma trama que se arrasta ao longo de décadas. Neste meio, de maneira parda, surgem governos de países Europeus e grupos econômicos e políticos dos Estados Unidos. O maniqueísmo aqui não se materializa nestas definições, pois há tantas outras agremiações envolvidas nesta contenda histórica.

No final, a conta será apresentada aos brasileiros, cada vez mais dependentes de um mundo rico e excludente. Nesta trajetória, a população de países da América Latina também terão o seu quinhão na conta da festa neoliberal, da qual não terá assento, cujo resultado no final, já é conhecido. O Filme já foi apresentado outras vezes em tempo pretéritos. A reviravolta, na realidade, anos depois, ressurge assim que houver a destruição de bens públicos para um recomeço eterno, à custa de sangue, lágrimas e suor.

 

 

Venezuela aprofunda a crise política latino-americana

O jornalismo brasileiro ao seguir a ordem econômica dos grandes centros econômicos prefere virar as costas para os países da América Latina ou selecionar fatos políticos sobre as nações latino-americanas de maneira negativa, cujas políticas destoam dos interesses das economias globais. O caso mais recente é o da Venezuela que convive com dura crise política e financeira, levando à população venezuelana à busca alternativa para sobreviver, sobretudo, diante da falta de alimentos.

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Fonte – Jornal El Paìs – Manifestantes protestam contra Serra em Buenos Aires./ ENRIQUE MARCARIAN REUTERS

 

No entanto, surge sempre a dúvida, se a escassez de produtos nos supermercados não está relacionada com uma política financeira internacional, cujo objetivo é desestabilizar países que fogem da ordem vigente global.

Numa pesquisa rápida nos jornais do Brasil, dificilmente será possível encontrar um texto que permita uma visão mais próxima da realidade política da América Latina, e, neste momento, da Venezuela. Recentemente, no processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, a Rede Globo destacou um repórter para o país vizinho, mas o que se viu foi somente a falta de papel higiênico e pasta dental nos supermercados, sempre movimentado com enormes filas de pessoas.

Sobre o processo político desencadeado entre partidos e agentes políticos, nada se pôde saber. No final, sobra as formações de fontes com opinião contrárias ao governo chavista de Nicolás Maduro.

O que parece estranho nas matérias, em comparação com a realidade, é que, se observado o processo político no Brasil, ninguém a bem pouco tempo imaginava condições para o impeachment da presidente eleita, ao contrário do que se notava ao longo dos últimos anos pelo jornalismo brasileiro sobre o presidente venezuelano. Porém, o efeito foi o contrário.

Maduro continua como chefe do executivo do país, debelando os movimentos da oposição que não consegue aprovar medidas que o retire do poder. Pelo andar da carruagem, a população nacional, que, segundo os jornais, fogem do país em busca de alimentos, ainda que pese à crise, mantém apoio ao chavismo.

O atual Chanceler Brasileiro do Governo Michel Temer (PMDB), o tucano José Serra, afirma todos os dias a oposição brasileira aos venezuelanos de presidirem o Mercosul até o final do ano, seguindo as normas definidas pelos governos que participam do bloco – em ordem alfabética, depois do Uruguai, na presidência do Mercosul, seria a vez da Venezuela assumir um cargo apenas simbólico, no final. Como resultado, as empresas que dependem de acertos econômicos da região perdem o fator negociação e sofrem com altas taxas sobre matérias primas regionais, diante da impossibilidade de os políticos sentarem-se à mesa para discutir a economia dos país latino-americanos do sul.

Não seria de estranhar a participação do Governo Maurício Macri, da Argentina, e o do Paraguai, na união com o Brasil ao lado da oposição que quer a destituição do governo Venezuelano, que por sua vez,  mantém apoio do Uruguai, Bolívia e Cuba. Como pode-se notar uma divisão entre os governos voltados para o social e os defensores do modelo econômico global em disputas de espaços regionais.

Como a política se modifica muito rapidamente, bem como nos centros de poder, o que resta é aguardar o desenlace destas disputas na América Latina, para saber quem chegará lá, se os defensores de uma política social voltados para interesses também regionais ou neoliberal, conforme receituário dos guardiães do poder, centralizados na Europa e Estados Unidos.

No Brasil, pelo menos os centros econômicos podem ficar tranquilos, a rigor, aqui a política está em dia com a ordem global financeira.

 

 

 

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